Artigos

Guia de uso do Teleprompter: Sinais e códigos padrões de uso.

12 min de leituraGrude® Vídeo e Marketing

Comecemos desfazendo uma confusão que vi repetida em vários textos por aí: esses sinais não são oficiais.

Não existe norma ABNT, não existe padrão ISO, não existe manual internacional de marcação de teleprompter. O que existe é uma convenção de redação — um conjunto de marcas que foi se firmando por uso, que a maioria das emissoras adota de forma parecida e que cada uma adapta ao seu jeito. A Globo marca de um jeito, a Record de outro, e a afiliada do interior de Minas provavelmente marca de um terceiro.

Isso não torna os sinais menos úteis. Torna-os mais fáceis de aprender, porque você não precisa decorar um padrão: precisa entender o que cada marca resolve. Entendendo isso, você adapta.

Eu monto teleprompter em gravação desde 2016 e escrevo o roteiro que meus clientes leem. A marcação que uso não é a de telejornal — é uma versão simplificada dela. Mas o princípio é o mesmo, e é o que este artigo explica.

De onde essas marcas realmente vieram

O teleprompter é de 1950. As marcas são bem mais velhas.

A TelePrompTer Corporation nasceu naquele ano, da união de três pessoas com problemas diferentes: Irving Kahn, o empresário; Fred Barton Jr., ator da Broadway que sabia como é esquecer texto no palco; e Hubert Schlafly, o engenheiro que construiu a coisa. A patente foi depositada em 21 de abril de 1949 e concedida quatro anos depois.

A primeira aparição ao vivo tem data exata: 4 de dezembro de 1950, na novela The First Hundred Years, da CBS. O motivo era prosaico — um ator não decorava as falas.

O aparelho original era mecânico. Um rolo de papel com letras de uma polegada, datilografadas numa máquina especial, empurrado à mão por um técnico escondido ao lado da câmera. Sem controle de velocidade, sem voltar atrás.

Agora repare no detalhe que interessa: o texto era datilografado. Máquina de escrever não tem negrito, não tem itálico, não tem tamanho de fonte. Se o apresentador precisava saber onde respirar, a única ferramenta disponível era bater uma tecla a mais.

Daí a barra.

E a barra também não foi inventada ali. Ela vem de duas tradições bem anteriores ao rádio e à televisão:

  • Da música. A cesura — duas barras inclinadas sobre a pauta — marca uma interrupção do fluxo há séculos. Cantores e regentes leem isso desde muito antes de existir microfone.
  • Dos manuais de elocução. Os compêndios de retórica do século XIX já marcavam os textos com barras para indicar onde o orador tomava fôlego.

O rádio, nos anos 1920 e 1930, herdou essas marcas para os textos de locução. A televisão herdou do rádio. E o teleprompter herdou da televisão.

Ou seja: quando você escreve uma barra no meio de uma frase para lembrar de respirar, está usando uma notação que já era velha quando a TV foi inventada.


Os sinais, um por um

1. Barra simples — a pausa curta

O prefeito assinou o decreto hoje/e o texto já vale.respire aqui — meio segundo, sem descer o tom

Uma barra é fôlego curto. Meio segundo, no máximo. É o equivalente falado da vírgula, mas com uma diferença importante: nem toda vírgula pede pausa, e nem toda pausa tem vírgula.

Esse é justamente o motivo de a marca existir. A pontuação foi feita para o olho, não para a boca. Quem lê em voz alta seguindo a pontuação ao pé da letra soa exatamente como alguém lendo em voz alta.

A regra prática que uso: leia o texto em voz alta uma vez e marque onde você respirou naturalmente. Não onde a gramática mandaria — onde o seu pulmão pediu.

2. Barra dupla — o ponto de virada

...e a obra segue parada.//Em outro assunto:um segundo inteiro — o assunto mudou, e a voz precisa avisar

Duas barras são um segundo inteiro, às vezes mais. Marcam mudança de assunto, entrada de outra notícia, virada de bloco.

É a marca mais desprezada e a que mais separa o amador do profissional. Quem emenda um assunto no outro sem pausa produz aquela sensação de metralhadora — o espectador não teve tempo de fechar um assunto antes de o próximo começar.

Na barra dupla você não respira só: você desce o tom, encerra a frase anterior de verdade e recomeça. Alguns roteiristas escrevem // e outros escrevem [PAUSA]. Dá no mesmo, desde que seja consistente no seu roteiro.

3. Barra tripla — o silêncio proposital

Ninguém sobreviveu.///A perícia começa amanhã.dois segundos — o silêncio faz parte da informação

Três barras marcam pausa dramática: dois segundos ou mais de silêncio deliberado.

Usa-se pouco, e é bom que seja assim. Em telejornal aparece depois de notícia grave, antes de um dado que precisa assentar, ou quando a imagem que vem a seguir fala sozinha.

Fora do telejornal, é a marca mais útil para quem vende: depois de dizer o preço, depois de fazer a pergunta que o cliente precisa responder por dentro. Silêncio dá tempo de a informação entrar. Quem tem medo do silêncio atropela justamente os momentos que importam.

4. MAIÚSCULAS — o que não pode ser lido em voz alta

GC: MARIA SOUZA / MORADORAQuem mora na rua conta outra história.isto NÃO se lê — é ordem para a equipe técnica

Tudo em caixa alta é instrução, não fala. É a convenção mais universal de todas, e a mais importante de respeitar: quem lê uma instrução em voz alta comete o erro clássico de estreante.

As siglas mais comuns nas redações brasileiras:

SiglaSignificaO que acontece
GCGerador de CaracteresEntra a tarja com nome e função na parte de baixo da tela
VTVideotapeEntra a matéria gravada; o apresentador para de falar
BGBackgroundSom ou imagem de fundo entra
OFFNarração em offO texto é narrado sobre imagens, sem aparecer
SOBE SOMO áudio ambiente ou a entrevista assume
VIVOEntrada ao vivo, geralmente com repórter em campo

O motivo de a caixa alta ter virado o código é o mesmo da barra: na máquina de escrever, era o único destaque disponível. Ficou.

5. Negrito — a palavra que carrega a frase

O reajuste vale paratodosos servidores.a ênfase muda o sentido — sem ela, a frase é só informação

O negrito marca onde a voz sobe. Parece detalhe e não é: em português, deslocar a ênfase muda o que a frase afirma.

"O reajuste vale para todos os servidores" responde a quem inclui. "O reajuste vale para todos os servidores" responde a quem duvidava. "O reajuste vale para todos os servidores" responde a quem perguntou o quê.

Mesma frase, três notícias diferentes. Marcar a ênfase é decidir qual delas você está dando — em vez de deixar por conta do acaso.

Use com parcimônia. Texto com dez palavras em negrito não tem nenhuma em destaque.

6. Quebra de linha — o bloco que o olho alcança

BLOCO LONGOo olho perde a linha e volta erradoBLOCOS CURTOScada linha é uma unidade de fala

Esta não é bem uma marca — é uma decisão de formatação, e talvez a que mais melhora a leitura de imediato.

Texto de teleprompter não se escreve em parágrafo. Escreve-se em linhas curtas, cada uma correspondendo a uma unidade de fôlego. O motivo é o mesmo que faz jornal ter colunas estreitas: quanto mais longa a linha, maior a chance de o olho voltar para a linha errada ao final dela.

Nas redações a regra costuma ser entre 5 e 8 palavras por linha. Se a sua linha está passando disso, quebre.

Isso tem um efeito colateral bom para vídeo: linha curta significa menos varredura do olho na horizontal — e menos varredura significa que o espectador percebe menos que você está lendo.

7. Cabeçalho de controle — o que fica acima do texto

RETRANCA: PONTE-INTERDITADATEMPO: 0:38CÂMERA 2A ponte do Rio Doce segue fechadapara caminhões.

Toda matéria de telejornal começa com um cabeçalho que o apresentador não lê, mas consulta com o canto do olho:

  • Retranca (ou slug) — o apelido curto da matéria, para localizar no espelho do programa
  • Tempo — quanto aquele trecho deve durar; é o que mantém o jornal dentro do horário
  • Câmera — para onde olhar, quando o estúdio tem mais de uma

Fora do telejornal, o campo que vale a pena copiar é o tempo. Escrever a duração-alvo no topo do roteiro muda o jeito como você escreve — porque 40 segundos são cerca de 100 palavras, e saber disso antes evita gravar três minutos e descobrir depois que precisa cortar dois.

8. Números por extenso — o tropeço mais previsível

TROPEÇAR$ 1.847.230,00 em 3 anosFLUIum milhão / oitocentos e quarenta e sete mil reais / em três anos

Algarismo é notação para o olho. Diante da câmera, o cérebro precisa converter 1.847.230 em fala enquanto você já está falando — e é aí que a voz trava.

Nas redações a regra é escrever por extenso tudo que vai ser dito, e quebrar o número em blocos com barras, como no exemplo acima. Repare que a barra não está ali por gramática nenhuma: está ali porque é onde o fôlego acaba.

Mesma coisa vale para sigla que se lê letra a letra. Escreva I-B-G-E e você nunca mais vai ler "ibgê" no ar.


Um roteiro marcado por inteiro

Junta tudo:

RETRANCA: CHUVA-VALE / TEMPO: 0:42 / CÂMERA 1

A chuva desta madrugada deixou oitenta famílias desabrigadas / em três bairros de Ipatinga. //

A Defesa Civil confirmou / dois pontos de deslizamento no bairro Bom Retiro / e interditou seis casas. ///

GC: CAP. RODRIGO LIMA / DEFESA CIVIL

A prefeitura abriu duas escolas para abrigar as famílias. //

VT — 1:15

Note o que a marcação faz: ela transforma um texto em partitura. Você não está mais lendo — está executando algo que já foi decidido antes, com calma, longe da pressão da câmera.

É exatamente por isso que apresentador experiente parece natural lendo. Ele não é melhor de improviso: ele chegou com o texto resolvido.

Como usar isso fora do telejornal

Se você grava vídeo para a sua empresa, não precisa de retranca nem de câmera 2. Precisa de três marcas, e só:

MarcaQuando usarEfeito
/Onde você respirou ao ler em voz altaFala deixa de ser corrida
//Entre um assunto e o próximoO espectador acompanha a virada
negritoUma palavra por frase, no máximoA frase passa a ter um sentido escolhido

Comece só com a barra simples. Escreva o roteiro, leia em voz alta uma vez, marque onde respirou. Já vai soar diferente na primeira gravação.

No Teleprompter Grude essas marcas convivem com o texto normalmente, e existe um controle que faz o trabalho complementar: o ajuste de pausa na pontuação, que aumenta ou reduz o tempo extra que o app dá ao passar por vírgula, ponto e sigla. Com o modo Olhar Grudado, em que as palavras aparecem uma por vez, esse ajuste é o que define se a leitura sai uniforme ou com respiração marcada.

Perguntas frequentes

Os sinais de teleprompter são padronizados oficialmente?

Não. Não existe norma técnica, ABNT ou padrão internacional para marcação de texto de teleprompter. São convenções de redação que se firmaram pelo uso e variam de emissora para emissora. A barra para pausa curta e a caixa alta para instruções técnicas são quase universais; o resto muda conforme a casa.

O que significa uma barra no texto do telejornal?

Uma barra simples indica pausa curta, de cerca de meio segundo — o tempo de tomar fôlego sem encerrar a frase. Ela marca onde o locutor respira, que nem sempre coincide com onde a gramática pediria vírgula.

E a barra dupla, o que quer dizer?

Pausa longa, de um segundo ou mais, com mudança de assunto. Além de respirar, o apresentador desce o tom, encerra o assunto anterior e recomeça. É o que evita a sensação de notícias emendadas umas nas outras.

Por que as instruções aparecem em letras maiúsculas?

Por herança da máquina de escrever, que não tinha negrito nem itálico: a caixa alta era o único destaque possível. A convenção pegou porque resolve bem o problema — o que está em maiúsculas não se lê em voz alta, é ordem para a equipe técnica.

O que é GC no teleprompter?

Gerador de Caracteres: a tarja com nome e função que aparece na parte de baixo da tela. Quando o roteiro traz GC: MARIA SOUZA / MORADORA, é instrução para a equipe inserir aquela identificação, e não texto para ser falado.

O que significa VT no roteiro?

Videotape — a matéria gravada que entra no lugar do apresentador. Ao chegar no VT, quem está no estúdio para de falar e a reportagem assume, geralmente com a duração indicada ao lado.

Quantas palavras devo colocar por linha no teleprompter?

Entre cinco e oito, que é a faixa usada nas redações. Linha curta reduz a chance de o olho voltar para a linha errada e diminui o movimento horizontal do olhar — o que também faz o espectador perceber menos que você está lendo.

Devo escrever números por extenso no roteiro?

Sim, sempre que forem falados. Algarismo obriga o cérebro a converter em fala durante a leitura, e é aí que a voz trava. Escreva por extenso e quebre números grandes com barras, seguindo o fôlego e não a gramática.

Quando surgiu o teleprompter?

Em 1950, criado pela TelePrompTer Corporation — sociedade entre o empresário Irving Kahn, o ator Fred Barton Jr. e o engenheiro Hubert Schlafly. A patente foi depositada em abril de 1949 e a primeira aparição ao vivo foi em 4 de dezembro de 1950, na novela The First Hundred Years, da CBS.

Preciso usar essa marcação nos meus vídeos de empresa?

Não toda. Para conteúdo de redes sociais, três marcas resolvem: barra simples para respiração, barra dupla para virada de assunto e negrito para a palavra que recebe ênfase. Retranca, câmera e siglas técnicas só fazem sentido em estúdio com equipe.


Leitura relacionada: se o problema não é o ritmo e sim travar diante da câmera, escrevi sobre isso em Por que você trava na frente da câmera. E se o que falta é o texto, veja a estrutura de 4 blocos para roteiro de 60 segundos.

Tags

#sinais de teleprompter#marcação de texto para telejornal#como marcar roteiro#teleprompter para jornalismo#ritmo e pausa na leitura

Precisa de um vídeo profissional?

15 anos de experiência, gravação em 4K. Ipatinga e todo o Brasil.

Falar no WhatsApp